quinta-feira, julho 08, 2004
A minha vida dava um disco(I)
Dummy - Portishead
Quando todos esperavam ver a encabeçar os discos da minha vida um registo qualquer dos The Smiths ou Morrissey, eu troco-vos as voltas e apresento aquele que é sem dúvida o primeiro da lista: Dummy dos Portishead.
Estávamos em 1994 e a melhor rádio que alguma vez existiu em Portugal, Xfm, brindava-nos diariamente com o que de melhor se fazia em termos musicais pelo mundo. Era uma rádio que não se deixava cair em play-lists preferindo dar novas sonoridades ao Portugal de então.
Pure good taste, dears.
A minha geração descobriu, à custa da X ( como era e é carinhosamente conhecida) vários nomes que se tornaram fenómenos de culto ( em maior e menor escala, claro está): Tindersticks, Tarnation, Walkabouts, Urban Species, Tricky and so on and so on. Tinha como mote a frase "Para uma imensa minoria",mas como a imensa não chegou calaram-na em 1997. Gentinha estúpida.
De volta a 1994.
Naquele ano eu já trabalhava e no meu gabinete o único rádio sintonizava-se sempre em 105.8. Naquele dia não houve excepção e sem aviso prévio começo a ouvir algo que me começou a petrificar o corpo e a humedecer os olhos. Nunca tinha ouvido nada igual. Era uma voz ao mesmo tempo doce e acre, suave e àspera, cristalina e rouca. Terminado o tema, a locutora dá a boa nova ao mundo, ao meu mundo: Sour Times dos Portishead.
Foi amor à primeira audição.
Imediatamente tentei ver se encontrava na Valentim de Carvalho, mas nada. Não me recordo quanto tempo ainda tive que esperar. Lembro-me que uma amiga comprou o dela em Paris e era o dela que ouvíamos ad infintum. Aqui nas lojas nem sinal dele e eu desesperava, tinha que ter aquele disco.
Esse dia chegou e o amor foi crescendo faixa a faixa. Tocava incessantemente no meu leitor de CD's e acreditem que ainda hoje é dos poucos que ouço com paixão do princípio ao fim como se fosse a primeira vez, ou a segunda ( a primeira vez raramente é boa, a segunda é que é óptima).
Adoro a voz da Beth Gibbons. Sou viciado. Adoro a forma como neste disco se desconstrói para voltar a construir. Adoro a voz quase sussurada no micro ( perfeitamente visível ao vivo). Adoro os samples, amo as harmonias, vibro com o bom gosto. Naquela época, os Portishead, a par com os Massive Attack e Tricky, trouxeram de Bristol uma nova sonoridade que durante bastante tempo foi conhecido como Trip-hop. Confesso que as catalogações dão-me um bocado seca, porque em geral nem os próprios interessados as querem para nada, a meu ver só vêm dificultar e criar teóricos chatos de música. Não há nada pior para a música do que um teórico, chato como a potassa.
Para mim, Dummy abriu novos horizontes de música bem feita, bem interpretada e encenada. Amo este disco e tenho milhares de razões para continuar apaixonado: o pedro, a fati, o rui, o pi, a zambujeira do mar, a xfm, o nuno, o aniki, a tarde, a noite, a madrugada, o meu quarto de casa dos meus pais, a minha sala, o meu cd, os meus vinis, os arrepios, as lágrimas, os sorrisos e tantas outras coisas boas que este disco viveu comigo.
Em Dummy mistura-se o meu passado, o meu presente e, espero, o meu futuro.
Dummy*****
(GoBeat, 1994)
* Mysterons
* Sour Times
* Strangers
* It could be sweet
* Wandering Star
* It's a fire
* Numb
* Roads
* Pedestal
* Biscuit
* Glory Box
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