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sexta-feira, dezembro 05, 2003

Prosa I 

Sempre que se cruzavam, entre a sala e o quarto, nada se ouvia. De um lado o corpo. Do outro a alma. Um vinha do quarto. A outra da sala. Era sempre assim. Cada noite igual à anterior. Toda a semana. Todas as semanas. Quando o sexo entrava pela porta da frente - ou como algumas vezes pelas traseiras - o corpo nu dirigia-se ansioso para a cama, onde outro corpo o esperava. Nesses momentos, alma deixava-se ficar entre dois braços de um sofá, inerte e melancólica. Todas as noites, toda a semana, ouvia o mesmo disco e ficava à espera que o corpo acabasse a sua missão. Quando tal acontecia, a alma levantava-se e dirigia-se para o corpo. Esta reconciliação dava-se no corredor, entre o quarto e a sala. Toda a semana. Todas as semanas e todas as noites. Enquanto o corpo descarregava noutro corpo, a alma generosa carregava-se de pensamentos de outra alma. Todas as noites, era esta a única maneira de tornar suportável aquela vida já muito próxima da morte. Quando os torniquetes da vida nos tornam hostis, a alma deixa o corpo agir. Fecha os olhos e foge. Todas as noites. Toda a semana. Todas as semanas.



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